Endometrioma Ovariano e Fertilização in Vitro (FIV): quando operar e quando seguir direto para a FIV

Postado em: 30/09/2025

O endometrioma — o “cisto de chocolate” no ovário — é uma das formas mais comuns de endometriose. Ele pode afetar a qualidade e a quantidade dos óvulos, mas isso não significa que a gravidez seja impossível. Com avaliação individualizada, muitas pacientes engravidam por Fertilização in Vitro (FIV) com ótimos resultados. A seguir, você encontra um guia claro e atualizado para decidir, junto ao seu médico, entre operar ou seguir direto para a FIV.

Dica de leitura interna: conheça a página da Fertilização in Vitro (FIV) e o conteúdo sobre Endometriose.

Médico(a) responsável: Dra. Aline Borges — Reprodução Humana | CRM‑SP nº 120.044 RQE nº 839431 (Reprodução Assistida).

O que é endometrioma e como ele impacta a fertilidade?

O endometrioma é um cisto ovariano formado por tecido semelhante ao endométrio. Ele é frequente em mulheres com endometriose — estimativas apontam que 17% a 44% das pacientes com endometriose apresentam endometriomas. A ultrassonografia transvaginal identifica a maioria dos casos, com taxa de detecção relatada de até 90% em exames de rotina, quando realizada por profissionais experientes.

Como esse cisto pode prejudicar? Há dois caminhos principais:

  • Ambiente inflamatório local (com ferro livre e citocinas) capaz de comprometer o microambiente do folículo e a competência do óvulo;
  • Efeito mecânico sobre o córtex ovariano, reduzindo o número de folículos disponíveis (reserva ovariana).
  • Nos marcadores de reserva ovariana, podem ocorrer reduções de AMH e AFC em pacientes com endometrioma — e cirurgias repetidas ampliam esse impacto.

FIV em mulheres com endometrioma: o que mostram os estudos

Uma revisão sistemática e meta‑análise em mulheres não operadas previamente mostrou que, embora a quantidade de óvulos coletados e de oócitos MII seja menor em quem tem endometrioma, as taxas de gestação clínica, implantação e nascimento vivo foram semelhantes às de mulheres sem a doença. Em outras palavras: a presença do cisto pode reduzir o número de óvulos, mas não necessariamente reduz os resultados finais da FIV.

Além disso:

Em séries de punção folicular com endometrioma, sob profilaxia antibiótica, não foram observados abscessos pélvicos; e o risco de contaminação do líquido folicular ou infecção é muito baixo (faixas relatadas de 2,8–6,1% e 0–1,9%, respectivamente).

Estratégias de “freeze‑all” (congelar todos os embriões e transferir em ciclo posterior) podem aumentar taxas de gestação em mulheres com endometriose, ajudando a contornar possíveis alterações de receptividade endometrial no ciclo fresco.

Saiba mais: veja nosso guia para aumentar as chances de sucesso na FIV.

Cirurgia antes da FIV: quando faz sentido (e quando não)

A decisão de operar o endometrioma antes da FIV deve ser cautelosa. Segundo parecer científico de referência internacional, fazer cistectomia apenas por tamanho (ex.: >3–4 cm) não melhora taxa de nascimento vivo na FIV e pode reduzir a reserva ovariana, principalmente se houver cirurgias repetidas ou doença bilateral. A cirurgia pode ser considerada quando:

  • há dor importante refratária,
  • suspeita de malignidade na imagem, ou
  • o cisto impede o acesso seguro aos folículos durante a punção.

Em pacientes com baixa reserva, doença bilateral ou histórico de cirurgia prévia, muitas vezes é mais prudente ir direto à FIV para evitar queda adicional da reserva e não atrasar o tratamento. Já em mulheres muito sintomáticas, com reserva preservada e cisto unilateral grande, a cirurgia pode ser discutida para alívio de sintomas e melhor acesso folicular — sempre com aconselhamento sobre riscos e benefícios.

Por isso, destaca-se que a cirurgia pode diminuir consideravelmente a reserva ovariana e que, em muitos casos, a FIV não é prejudicada pela presença do cisto — reforçando a importância da decisão personalizada.

Como personalizamos a estratégia no consultório

Na prática, a melhor conduta nasce de uma integração de fatores:

  • Idade e reserva ovariana (AMH, AFC)
  • Tamanho, número, lateralidade (uni/bilateral) e proximidade dos folículos em relação ao cisto
  • Sintomas de dor e impacto na qualidade de vida
  • Histórico de cirurgias ovarianas
  • Tempo de infertilidade e planejamento reprodutivo (ex.: desejo de mais filhos no futuro)
  • Viabilidade de punção folicular segura e de estratégias de laboratório (ICSI, freeze‑all)

Em muitas situações, mapear a endometriose com imagem especializada ajuda a planejar a punção e a transferência embrionária com segurança. Veja o nosso serviço de Mapeamento de Endometriose.

Perguntas frequentes (FAQ)

É possível coletar óvulos com endometrioma?

Sim. Em centros experientes, com preparo adequado (incluindo antibiótico profilático quando indicado), o risco de infecção ou contaminação do folículo é baixo, e os resultados de FIV são comparáveis aos de mulheres sem endometrioma.

O endometrioma sempre causa infertilidade?

Não. Algumas pacientes engravidam naturalmente; porém, a presença do cisto se associa a pior resposta ovariana e pode reduzir a quantidade de óvulos disponíveis, especialmente em casos bilaterais ou após cirurgias repetidas. Por isso, a avaliação individual é fundamental.

Tamanho importa?

O tamanho isolado não deve determinar a cirurgia antes da FIV: retirar cistos >3 cm não aumentou nascimentos vivos e ainda pode diminuir a reserva. Indicações cirúrgicas valem quando há dor, suspeita de câncer ou dificuldade de acesso na punção.

Conclusão: decisão compartilhada e foco no projeto de gravidez

FIV com endometrioma: costuma oferecer boas taxas de gestação e nascimento vivo, apesar de menor número de óvulos coletados.

Cirurgia seletiva: indicada por dor, suspeita de malignidade ou acesso; evitar cirurgias desnecessárias, sobretudo em quem já tem baixa reserva.

Planejamento reprodutivo: para quem não pretende engravidar agora, vale discutir preservação da fertilidade (congelamento de óvulos/embriões).

Próximo passo: se você convive com endometriose ou recebeu diagnóstico de endometrioma, agende uma avaliação especializada. Atendemos presencialmente e por telemedicina. Para marcar, acesse a página Agende sua consulta ou fale pelo WhatsApp no site.

Referências Bibliográficas:

Meta‑análise sobre impacto do endometrioma na FIV: redução no número de óvulos, mas gestação e nascimento vivo semelhantes às de controles.

RCOG – Scientific Impact Paper n.º 55 (atualização): efeito da cirurgia na fertilidade, baixa taxa de complicações na punção, e recomendações de quando operar versus seguir para a FIV.


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