Fecundação in vitro (FIV): principais dúvidas e respostas
Postado em: 03/10/2025
A fecundação in vitro (FIV), também chamada de fertilização in vitro, é hoje a técnica de reprodução assistida com maior eficácia clínica para mulheres e casais que desejam formar uma família. Geralmente recomendo a FIV quando outras abordagens não trouxeram resultado ou quando há fatores que reduzem isoladamente as chances de gravidez, como trompas obstruídas, endometriose, idade materna elevada ou fator masculino severo.
Neste guia em linguagem simples, respondo às dúvidas mais comuns sobre o passo a passo da FIV, as chances de sucesso por idade, o papel do PGT‑A (teste genético pré‑implantacional) e a transferência única de embrião (SET).
As respostas abaixo combinam evidências científicas e experiência clínica diária, para que você entenda o processo, alinhe expectativas e tome decisões com segurança.
Como a FIV funciona (passo a passo)
Na FIV, o óvulo é fertilizado pelo espermatozoide em laboratório. Após alguns dias de desenvolvimento, o embrião é transferido para o útero para tentar a implantação e o início da gestação.
- Estimulação ovariana: uso de hormônios por 8 a 12 dias para estimular o crescimento de múltiplos folículos ovarianos.
- Punção folicular: coleta dos óvulos por via transvaginal, guiada por ultrassom, com sedação leve.
- Fertilização: realizada por ICSI (injeção intracitoplasmática de espermatozoide) ou pela FIV clássica, em meio de cultura controlado.
- Cultivo embrionário: os embriões são monitorados em incubadoras com time‑lapse, que registram o desenvolvimento contínuo sem necessidade de manipulação.
- Transferência embrionária: procedimento simples, rápido e geralmente indolor, semelhante a um exame ginecológico.
Quando a FIV é indicada
Indico o tratamento nas seguintes situações:
- Trompas ausentes ou obstruídas;
- Endometriose moderada ou grave;
- Baixa reserva ovariana ou idade acima de 35–37 anos;
- Fator masculino severo (baixa contagem, motilidade ou morfologia dos espermatozoides);
- Falhas anteriores com coito programado ou inseminação artificial;
- Casais homoafetivos femininos ou mulheres solteiras que desejam engravidar com sêmen de doador.
Dor e efeitos colaterais: o que esperar
Em geral, o tratamento é bem tolerado. As injeções utilizam agulhas finas e a punção ocorre com sedação, sem dor. Eventuais incômodos — como leve inchaço ou cólicas — costumam ceder com analgésicos simples e boa hidratação.
Chances de sucesso da FIV por idade e com PGT‑A
A idade feminina é decisiva. Em média, observo as seguintes faixas por ciclo:
- Até 35 anos — 50–60%.
- 35–37 anos — 45–50%.
- 38–40 anos — 30–35%.
- Acima de 40 anos — 15–25%.
Quando aplico o PGT‑A para selecionar embriões cromossomicamente normais, há tendência de elevar as taxas de implantação e reduzir abortos. Em mulheres com menos de 38 anos, a probabilidade acumulada de sucesso após até três ciclos pode ultrapassar 80%. [3]
Quantos embriões transferir (SET x transferência de dois embriões)
A prática atual privilegia a transferência única de embrião (single embryo transfer, SET) em pacientes até 37 anos com embriões de boa qualidade, minimizando gestações múltiplas sem comprometer os resultados. Em circunstâncias específicas — como idade avançada ou falhas anteriores — pode‑se considerar transferir dois embriões. [4]
Preciso usar meus próprios óvulos e o sêmen do parceiro?
Não obrigatoriamente. Podemos recorrer a óvulos de doadora, sêmen de doador ou até embriões doados, sempre conforme as normas do Conselho Federal de Medicina (CFM). Essas alternativas aumentam as chances quando os gametas do casal não são viáveis. [7]
A FIV garante gravidez?
Nenhum tratamento oferece garantia absoluta. A FIV, no entanto, concentra a maior probabilidade porque controla etapas críticas: formação do embrião, seleção morfológica, condições de cultivo e, quando indicado, análise genética.
Quantos ciclos de FIV valem a pena?
Depende de idade, reserva ovariana, causa de infertilidade e orçamento. A maioria dos casais engravida entre o primeiro e o terceiro ciclo. A cada tentativa, ajusto medicações, protocolo de cultivo e o momento da transferência. O apoio psicológico é bem‑vindo para lidar com o impacto emocional.
Congelamento de óvulos e embriões (vitrificação)
Mulheres jovens com boa resposta podem vitrificar óvulos para uso futuro; casais podem congelar embriões excedentes e evitar nova estimulação. A vitrificação moderna costuma garantir mais de 90% de sobrevivência das células após o descongelamento. [5]
Exames antes de iniciar a FIV
Antes do tratamento, solicito:
- Ultrassom transvaginal com contagem de folículos antrais (CFA);
- AMH para estimar reserva ovariana;
- FSH e estradiol no 2º dia do ciclo;
- Sorologias para HIV, hepatites, sífilis e HTLV;
- Avaliação uterina (histeroscopia ou histerossonossalpingografia/HyCoSy);
- Espermograma completo do parceiro.
Esses exames ajudam a individualizar o protocolo e a prever resposta à estimulação. [1,2]
Quando procurar um especialista em reprodução humana
Recomendo avaliação especializada nos casos abaixo:
- Tentativas sem sucesso por 12 meses (ou por 6 meses, se a mulher tem 35 anos ou mais);
- Diagnóstico de endometriose, trompas obstruídas ou alteração importante no espermograma;
- Pacientes oncológicos antes de quimioterapia;
- Casais homoafetivos ou mulheres solo que planejam engravidar.
Quanto mais cedo avaliarmos, maior o leque de opções: coito programado, inseminação artificial, FIV ou congelamento de gametas. [2]
Próximos passos e agendamento
Meu compromisso é unir ciência, tecnologia e acolhimento para tornar a jornada da fertilidade mais leve e segura. Se você quer entender se a fecundação in vitro é a melhor opção, agende sua consulta. Vamos revisar seus exames, discutir expectativas e construir um plano personalizado para realizar o seu sonho de formar uma família.
Agende sua avaliação com a Dra. Aline Borges. Se você precisa avaliar útero e trompas por histerossonossalpingografia com contraste (HyCoSy) ou busca orientação especializada, entre em contato pelo WhatsApp ou visite o site. A Dra. Aline Borges é ginecologista, especialista em reprodução humana, atua em ultrassonografia da mulher e é professora de cursos de HyCoSy e ultrassonografia para endometriose no CETRUS.
FAQ — perguntas rápidas sobre FIV
A FIV dói?
O tratamento costuma ser bem tolerado. As injeções são feitas com agulhas finas e a punção folicular é realizada com sedação. Pode haver leve inchaço ou cólica por poucos dias, aliviados com analgésicos simples.
Quantos embriões devo transferir?
Sempre que possível, priorizamos a transferência única de embrião (SET) para reduzir o risco de gestação múltipla. Em casos selecionados, como idade avançada ou falhas prévias, podemos considerar transferir dois embriões. [4]
Preciso usar meus próprios óvulos e o sêmen do parceiro?
Não necessariamente. Óvulos de doadora, sêmen de doador ou embriões doados podem ser indicados, conforme as normas do CFM. [7]
A FIV garante gravidez?
Não há garantia absoluta. A FIV aumenta as chances porque permite controlar etapas críticas do processo reprodutivo e, quando indicado, incluir PGT‑A.
Quantos ciclos de FIV valem a pena?
Varia conforme idade, reserva ovariana e causa da infertilidade. A maioria consegue engravidar entre o primeiro e o terceiro ciclo; aprimoramos o protocolo a cada tentativa.
Referências
- [1] The ESHRE Guideline Group on Ovarian Stimulation et al. ESHRE guideline: ovarian stimulation for IVF/ICSI. Hum Reprod Open. 2020;2020(2):hoaa009. doi:10.1093/hropen/hoaa009. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32395637/
- [2] Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Fertility evaluation of infertile women: a committee opinion. Fertil Steril. 2021;116(5):1255–1265. doi:10.1016/j.fertnstert.2021.08.038. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34607703/
- [3] Practice Committees of ASRM and SART. The use of preimplantation genetic testing for aneuploidy (PGT‑A): a committee opinion. Fertil Steril. 2024;122(3):421–434. doi:10.1016/j.fertnstert.2024.04.013. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38762806/
- [4] Practice Committee of ASRM; Practice Committee of SART. Guidance on the limits to the number of embryos to transfer: a committee opinion. Fertil Steril. 2021;116(3):651–654. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34330423/
- [5] ESHRE Guideline Group on Female Fertility Preservation. ESHRE guideline: female fertility preservation. Hum Reprod Open. 2020;2020(4):hoaa052. Disponível em: https://academic.oup.com/hropen/article/2020/4/hoaa052/5981739
- [6] Carson SA, Kallen AN. Diagnosis and Management of Infertility: A Review. JAMA. 2021;326(1):65–76. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9302705/
- [7] Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.320/2022 — Normas éticas para a utilização das técnicas de reprodução assistida. Disponível em: https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/resolucoes/BR/2022/2320_2022.pdf
